Uma entrevista de trabalho estranha


A priori o tema não parece ser muito aderente ao assunto central do blog, porém espero que no decorrer do texto eu consiga me expressar da maneira correta para compartilhar com vocês como as minhas atuais metas de vida podem ter me ajudado ou até me atrapalhado dependendo do ponto de vista.

Vamos lá, recebi um contato no final do ano passado de um profissional especializado na contratação de executivos, ele não era de uma empresa de recrutamento ele era um profissional de uma empresa multinacional de tecnologia, troquei algumas mensagens curtas e veio o convite para realização de uma entrevista, em um primeiro instante até pensei em não participar, afinal meu objetivo de médio prazo é ter mais tempo à família, para minha saúde e para o surf, mas após muita reflexão percebi que eu não tinha nada a perder com a conversa. As sugestões de agenda não casaram com um dia que eu estivesse na localidade da entrevista e agendamos uma vídeo conferência para viabilizar a entrevista.

Posso adiantar que foi a melhor entrevista que já fiz na vida, o entrevistador era muito bem preparado, fez excelentes perguntas e conversamos por quase uma hora. A conversa começou com a apresentação do entrevistador e uma apresentação bem detalhada sobre a situação atual, os planos de curto e médio prazo da empresa que ele estava representando, após a conclusão dessa introdução ele pediu para que eu falasse um pouco sobre as minhas atividades nos últimos 2 anos.

Nesse ponto eu expliquei toda a trajetória que eu tive na criação de uma nova oferta de serviços, desde os primeiros pilotos, passando pela otimização da metodologia, criação da abordagem comercial, contratação e treinamento do time de entrega, participação como palestrante em eventos, prospecção de clientes, as primeiras grandes vendas até o amadurecimento da oferta e os bons resultados financeiros que culminaram com a minha promoção.

Percebi que o entrevistador ficou muito interessado no meu relato, pois a história apresentou alguém capaz de atuar nos temas estruturais, na entrega, na pré-venda e na venda em si, pode ser um pouco de prepotência achar que foi esse o motivo, mas enfim eu acho que foi esse o motivo dele ter mostrando tanto interesse na minha história. A próxima pergunta foi relacionada sobre as métricas utilizadas para acompanhar a efetividade do trabalho e eu consegui dar detalhes das métricas e ainda dizer o motivo pelo qual cada uma delas era importante.

Até esse ponto estava tudo indo da melhor maneira possível, porém a pergunta que viria me causou um grande conflito mental. O entrevistador me perguntou se eu teria interesse em assumir a liderança de uma operação regional, explicou que o escopo era a América Latina e falou um pouco do papel e responsabilidade, confesso que prestei pouca atenção na fala do entrevistador após a pergunta, meus pensamentos foram muito longe, pensei em diversas coisas e projetei alguns futuros possíveis, quando voltei para o presente o entrevistador aguardava minha resposta e ela veio de maneira precisa.

Eu disse não!

Experimentamos alguns segundos de silêncio, e eu acabei ficando constrangido, afinal o entrevistador estava se dedicando de maneira muito intensa para a entrevista e eu tentei dar uma explicação para minha negação afirmando que eu não era tão experiente, que apesar de me orgulhar muito das minhas realizações eu achei um nicho que seria difícil não produzir bons resultados, enfim tentei justificar algo que pareceu injustificável.

O entrevistador não se deu por vencido e apresentou vários pontos positivos para minha carreira e se esforçou para mostrar como poderia ser uma experiência interessante. Eu escutava atentamente e após o final da conversa eu consegui uma resposta que fizesse mais sentido e que conseguisse embasar melhor a minha negação, expliquei que eu gostava muito dos assuntos técnicos e que não tinha interesse de me afastar da criação de produtos e da entrega dos projetos, a vaga que havia sido oferecida para mim era muito burocrática e ficava distante dos assuntos técnicos.

Mesmo com a esfriada que eu dei na entrevista a conversa ainda continuou sendo interessante, o entrevistador apresentou outras possibilidades de atuação dentro da empresa que poderiam fazer sentido pra mim, dentre as outras perguntas que ele me fez mais uma é digna de nota neste post, ele me perguntou quais eram meus objetivos em relação a evolução acadêmica nos próximos anos. Outra pergunta indigesta, percebi que a única coisa que eu tenho estudado é o inglês e que eu não tinha nada planejado para atualizar meus conhecimentos.

Neste ponto acho que já consigo fazer a conclusão do post e explicar o motivo do texto ter uma correlação forte com o assunto central do blog, eu tenho perseguido de maneira tão intensa minhas metas financeiras e o sonho de liberdade e eu acredito tanto que isso vai dar certo que já criei uma barreira mental em relação a uma possível evolução profissional que irá me trazer mais stress e mais responsabilidade.

A exatos 5 anos no passado, eu provavelmente estaria correndo atrás de uma oportunidade dessas como um maluco, sem me preocupar com a saúde, com a família e provavelmente estaria alavancado bancando o executivo bem sucedido e endividado.

Eu acho que a mudança que eu promovi no meu estilo de vida foi muito excelente para mim, mas tenho certeza que a grande maioria das pessoas não teria desperdiçado a oportunidade que eu desperdicei. Já testei a reação de algumas pessoas mais próximas e todas elas consideram que eu fiz uma grande besteira. Pelo visto sou a minoria.

Uma coisa é certa eu estou muito mais para fazer um downgrade na carreira assumindo uma posição mais operacional, e justamente por isso não tenho ambição para buscar promoções e não tenho planos para melhorar meu currículo acadêmico. Em relação aos estudos acredito que estou cometendo um erro, afinal conhecimento é o melhor ativo que podemos ter, ninguém sabe o dia de amanhã.

E aí o que você faria? Enfrentaria mais alguns anos de stress para acelerar a IF, ou iria em uma caminhada mais suave, aproveitando um pouco melhor o presente.
Uma entrevista de trabalho estranha Uma entrevista de trabalho estranha Reviewed by Unknown on 1:42 PM Rating: 5

20 comentários:

  1. Legal a história, valeu por compartilhar.

    Nāo aceitar a proposta é uma questão de prioridades. Nesse momento da sua vida você valoriza mais a sua família e o tempo livre ao invés de uma chance de crescer na carreira (e provavelmente abdicar muito tempo livre).

    Só a busca a IF consegue trazer essa segurança, não existe dinheiro que pague a liberdade.

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    1. Jovem essa é uma verdade ter conseguido um mínimo de educação financeira me dá segurança para tomar esse tipo de decisão.

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  2. Pra mim faz todo o sentido. Consigo tranquilamente me colocar em seu lugar e dizer Não também. Considerando-se que o sujeito tem renda suficiente para que não falte o básico e ainda consegue caminhar (ainda que suavemente) em direção a IF, pode se dar ao luxo de fazer este tipo de escolhas.

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    1. Minha linha de pensamento é exatamente essa. Talvez no futuro algo mude ou nao. Assim sigo no meu ritmo tentando equilibrar meu tempo para as coisas que eu gosto .
      Valeu pelo comentário.

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  3. Interessante seu depoimento. Acho que muitos de nós já pararam pra pensar até onde vale a pena ir na carreira. Eu trabalho na área de TI e vejo muitos diretores abrindo mão da vida pessoal para se dedicar ao trabalho. Sempre me pego perguntando até onde isso vale a pena. Por outro lado eu tenho amigos que conseguem lidar espetacularmente bem com esse balanceamento. Eu acredito que quanto mais estivermos capacitados e se colocarmos as nossas premissas desde o começo é possível manter um certo equilíbrio assumindo uma posição de mais responsabilidades. As vezes pode ser até um preconceito do estereótipo do executivo. Difícil responder essa pergunta, mas acredito que assumir algo para o qual você não se sente preparado seria um erro porque provavelmente você não traria bons resultados com esse mindset. Se você estava tão decidido em dizer não é porque você não se considerava preparado, então acredito que tenha sido a resposta mais honesta. Talvez você perceba mais tarde que está realmente preparado e aceite novas oportunidades que possam aparecer ou então decida que a posição mais técnica seja realmente sua escolha. Eu tbm estou no caminho da IF, mas acredito que precisamos nos manter "no mercado" se atualizando constantemente e mantendo o networking até que o objetivo seja atingido. Um forte abraço e lhe desejo muita sabedoria nas suas escolhas. Lembre-se: "Decidir o que não fazer é tão importante quanto decidir o que fazer." Steve Jobs

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    1. Boa Sid, disse muitas verdades eu realmente não me sinto preparado, e isso é natural, pois não é meu objetivo. Eu de verdade já vi caras do alto escalão com vidas equilibradas, que foram alcançadas depois de muitos anos de trabalho e após a composição de um time confiável e altamente capacitado, não existe mágica.
      Valeu pelo comentário .

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  4. Olha, eu tenho um perfil parecido com o seu... e diria não também. Hoje fui no enterro de um colega de TI da minha sala, 22k de salário, workaholic, tinha obesidade, faltava saúde de tanto trabalhar e mal via a família: deixou 1 menina de 3 anos aos 39 anos - infarto - prefiro meus 8k no operacional e vivo com minha filha de 4 todos os dias.

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    1. Deus me livre de um destino desse, realmente a vida e imprevisível, mesmo aqueles que conseguem manter uma vida saudável podem partir de maneira inesperada, por isso acredito muito de sempre tentar o equilíbrio.

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  5. valeu por compartilhar surfista.
    Abraco.

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  6. Já recusei cargo de coordenador. Iria ganhar mais, mas também trabalharia mais. Questão de prioridades...

    Mas como gosto de estudar, não recuso oportunidades de cursos e evoluções acadêmicas.

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    1. Anom estudar sem sombra de dúvidas é o melhor investimento que podemos fazer.

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  7. Não chegou nem perto de um cargo executivo, mas já recusei também uma oportunidade de emprego que o salário era melhor do que o meu atual e isso foi tão bom! Compartilho do seu sentimento...
    Quando a gente tem o controle das finanças pessoais, com curto ou até mesmo médio prazo garantido, nossas escolhas vão além do dinheiro e isso é o que mais me motiva na busca pela independência financeira!!

    E fora que sempre fica a porta aberta, caso mude de ideia, como nós que dissemos NÃO, a vantagem é nossa!!! Boa Surfista, parabéns

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    1. Pra mim essa possibilidade é um grande benefício dos suados anos de poupança. Hoje, como já tenho alguns dias da decisão meio automática tenho ainda mais certeza que fiz o certo pra mim...

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    1. Com ajuda de alguns amigos que já surfavam, mas eu recomendo fazer uma aula ou outra no início para ter uma base de posicionamento.

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  9. "Uma coisa é certa eu estou muito mais para fazer um downgrade na carreira assumindo uma posição mais operacional, e justamente por isso não tenho ambição para buscar promoções e não tenho planos para melhorar meu currículo acadêmico."
    Fiz o downgrade e não me arrependo. As tardes livres para passear com minha filha e me dedicar a ela me deram um upgrade no meu bem estar. Vale a pena mesmo.

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    1. Boa Eduardo, espero estar em uma situação parecida com a sua em breve. Muito obrigado pelo comentário.

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“Em tempos de embustes universais, dizer a verdade se torna um ato revolucionário.”
George Orwell

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